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Don’t Look Up! e outros negacionismos

Em uma tarde ensolarada de sábado, Déborah Danowski, Tiago Andrade, José Márcio e Elisa Rezende compartilharam algumas impressões sobre o filme Don’t Look Up (2021) de Adam Mckay. A obra foi lançada no dia 24 de dezembro de 2021 como um filme de natal e provocou uma divisão considerável entre os críticos e o público (até hoje o filme possui a pontuação de 56% entre críticos no site Rotten Tomatoes!). O que nos interessava naquela ocasião era como o papel dos cientistas no debate público retratado no filme era recebido não só pela audiência em geral, mas pelos próprios cientistas. A discussão foi se expandindo para além do filme de Adam Mckay e suas alegorias, abrangendo outros filmes de catástrofe, a questão do negacionismo científico, da dificuldade de viver juntos, dos envelopes da vida e dos refúgios.

Muitas das questões levantadas naquele dia permanecem em aberto e mantém sua relevância hoje, talvez de modo ainda mais agudo no contexto atual da convergência entre tantas guerras, os ataques virulentos à democracia, e a intensificação no uso de recursos naturais para alimentar projetos tecnológicos multimilionários que beneficiam poucos ao custo de um planeta habitável. Em retrospecto, a palavra de ordem “Don’t Look Up” parece hoje ter se infiltrado nos mais diversos domínios da vida social com a escalada global do fascismo. Mas é a própria questão sobre o que nos aguarda se olharmos para cima, ou para fora (e se há mesmo um ‘cima’ ou um ‘fora’ desse pesadelo) que, em certo sentido, animava nossas questões. Essa é uma das razões que nos motivaram a voltar ao arquivo do Terranias para recuperar essa conversa cheia de derivas que ocorreu ao longo de um encontro do Cineclube.

Elisa Rezende:  Eu fiquei pensando e queria ouvi-los sobre isso. O filme Don’t Look Up está na boca das pessoas. Aqui em Minas, por exemplo, de dezembro a janeiro foram quase 30 dias de chuvas ininterruptas, sem um solzinho, só abriu o sol agora, esta semana. E, com isso, as notícias de tragédias foram se multiplicando. E as tragédias que começaram nas áreas periféricas, foram chegando também à Zona Sul, a condomínios de luxo… E muita gente começou a fazer menção ao filme, ao fim do mundo. E aí eu pensei: “Olha, aí tem uma coisa interessante.” Ouvi muitos comentários assim: “Nossa, que filme divertido, morri de rir”; mas, ao mesmo tempo, eu tive a impressão de que muitas pessoas foram associando a essas manifestações climáticas extremas, no caso, a chuva ininterrupta, e a ficha foi caindo, que a partir de agora os eventos climáticos serão sempre extremos. E aí vem o filme, e fica na boca de muitas pessoas.

Déborah Danowski: Pois é, eu acho (acho, mas na verdade não li nada sobre como foi concebido, sobre a ideia mesma do filme) que o filme foi feito para despertar essa questão: é engraçado ou é dramático? O curioso é que, fora as pessoas que já estão ligadas, eu acho que quem não estava ligado, pelo menos a maioria das pessoas aqui no Brasil, nas redes sociais, falaram foi da pandemia, do Bolsonaro… Disseram: “Ah, olha só, é o Bolsonaro”, ou: “É o Trump”, “é a pandemia”, “é exatamente o que está acontecendo”. E quem não estava com essa coisa do clima na cabeça não percebeu, não fez a conexão…

ER: Você acha que não fez, não é? Nem assim…

DD: Eu acho que não. Ou melhor, é sempre possível que alguém tenha feito, mas não é uma mensagem direta. Vários desses filmes de fim do mundo fazem isso: escolhem outra catástrofe, deslocam o problema, da catástrofe climática para uma outra, que neste caso é um cometa e acontece de uma vez só, é muito mais bruta, e por isso é mais representável, é mais fácil de criar essa sensação no espectador. Então é uma escolha que foi feita, de não falar diretamente da questão, o que permite mais facilmente o tratamento como comédia. Mas a impressão que eu tive é que quem não está ligado mesmo não fez essa conexão… Quer dizer, você [Elisa] falou sobre uma outra situação, em que as pessoas começaram, a posteriori, a fazer a ligação, por causa dessas outras tragédias, não é?

ER: Mas você tem razão, eu acho. Aqui em Minas foi muito em função disso. Muitas pessoas começaram a dizer: “Gente, eu estou com medo dessa chuva, estou assustada”. E começaram a manifestar uma ou outra conexão com o filme e com essa ideia de … fim. Mas eu acho que você tem razão: de uma maneira geral a discussão passa mais mesmo pela questão da pandemia e pela questão política… É que tem muita gente que ri com essa ideia de fim de mundo, não é? Ri, não acredita. Acha que não, que se fala de fim de mundo há tanto tempo, mas o mundo não acaba… Enfim, brinca-se muito com isso.

DD: Eu me lembro que, em 2012, eu fui com a Alyne (Costa) e o Eduardo (Viveiros de Castro) ver o filme do Abel Ferrara 4:44, O último dia na Terra, no Centro Cultural Banco do Brasil. A gente estava apavorada, e as pessoas riam o tempo todo na plateia – aquela plateiazinha pequena, da cinemateca do CCBB. Muito doido, não sei bem por que… talvez pensassem: “Isso é uma ficção sobre o fim do mundo, algo totalmente impossível, então é pra ser engraçado.”

ER: Eu não conheço esse filme. As pessoas riam mas ele é comédia ou não?

DD: Não, nem um pouco comédia, nada.

ER: Interessante isso. Eu tenho uma pergunta: no caso do Don’t Look Up, a escolha pela linguagem da comédia  – e de fato o filme faz todo mundo rir – será que é boa para o debate sobre a emergência climática?

DD: Eu acho bom… Eu acho que há lugar pra tudo, e essa foi uma escolha. Não acho que deva ser ou não deva ser uma comédia. Fizeram uma comédia, que torna a coisa mais leve e mais assimilável. Não sei dizer se é melhor que seja assim ou não, mas foi assim, e é interessante que tenha sido. Em um artigo que escreveram juntos para o The Guardian, a Ayana Elizabeth Johnson, uma bióloga marinha, e o diretor do filme, Adam McKay, dizem que fizeram essa escolha porque “quando as pessoas riem juntas, isso lhes dá perspectiva, alívio e, sobretudo, uma sensação de comunidade”[1]. Tem várias outras coisas interessantes que poderíamos dizer sobre o filme. A France Culture fez uma emissão [Don’t Look Up : l’apocalypse], em que alguém diz que principalmente os cientistas do clima gostaram muito do filme. E é isso mesmo.

Tiago Andrade: Por identificação, né? 

DD: Acho que sim. Teve um outro artigo, em que o autor, Steve Desch, ele mesmo um astrofísico, falou da negação dos próprios cientistas, que não se empenham suficientemente em aprimorar a maneira como se dirigem ao público [2]. Isso é algo interessante, raramente abordado, e o filme pega isso bem: não há ali uma divisão clara entre os bons e os maus, mas uma mistura. Sem contar que o Randall Mindy [representado por Leonardo Di Caprio], professor de astronomia e orientador da cientista que descobre o meteoro [Kate Dibiasky, representada por Jennifer Lawrence], ele começa o filme desesperado com a descoberta, mas acaba virando… ele é seduzido pela repórter [Cate Blanchett], se envolve com ela, e acaba acreditando nas boas intenções daquela espécie de “Elon Musk” da vida, Peter Isherwell  [Mark Rylance]. Só depois, mais pro final, ele se dá conta do que está acontecendo com ele. Mas o interessante também é que essa “virada”, esse desvio dele, também se deveu à dificuldade que ele enquanto cientista sente diante da negação geral, de todo mundo achar que eles são malucos, sentimentais, exagerados, catastrofistas. Em uma entrevista recente à radio France Inter, em que fala rapidamente sobre o filme [3], Bruno Latour diz exatamente isso, que o filme faz uma crítica da mídia, dos políticos, mas também dos cientistas. A curiosidade aqui é que Latour não tinha gostado do filme da primeira vez que assistiu, mas da segunda vez gostou muito.

TA: O filme não parece acreditar que os meios de comunicação consigam transmitir ao público a gravidade da situação, é como se o público interpretasse o papel tragicômico do ingênuo que por uma falha na comunicação continua performando os mesmos atos, ignorando a gravidade ou a graça da situação na qual se encontra. A confusão aqui não é puramente cognitiva, uma vez que também o cientista interpretado por Leonardo Di Caprio se revela vulnerável a uma completa confusão sobre o seu papel de comunicador de um problema. Fico pensando que o filme não consiste tanto em um esforço pedagógico da esquerda liberal e esclarecida como sugerido na emissão da France Culture, mas em uma denúncia da ecologia da grande mídia e dos meios de comunicação, de seu papel no aprofundamento da crise (como no caso emblemático da onipresença das imagens de Donald Trump nas telas norte-americanas) e sua falha catastrófica em cumprir seu trabalho de comunicação geral em torno de um problema universal. Há um pessimismo a respeito da mídia. Mas é justamente em sua tentativa de denúncia que o filme derrapa, a meu ver.   

DD: O que eu mais gostei sobre isso foi o que li nesse artigo que citei antes, do Adam McKay com a Ayana Elizabeth Johnson, em que eles reconhecem que está havendo muita discussão sobre o filme, muitas críticas e tal, mas consideram que quanto mais invenções criativas, artísticas pra falar disso, melhor. E eu concordo: as pessoas criticam muito o filme dizendo: tem isso de errado, representa aquilo de maneira errada, não é bem filmado, é simplista, não desenvolve os personagens, e isso e aquilo, mas na verdade eu acho que ele colabora pra formar, junto com outras obras de arte, um conjunto que talvez mais adiante v​​á produzir um efeito importante sobre o pensamento e a imaginação coletiva; acho que a ideia é mais esta, de fazer voltar essas diferentes formas de expressão artística para falarem desse tema.

José Márcio Fragoso: Vocês acham que o filme é tão óbvio assim? Eu achava que era, até que vi, no youtube, que gente da direita negacionista começou a tomá-lo como se ele estivesse corroborando as ideias desse povo. Pra mim o filme era meio que uma comédia pastelão, em que tudo parece caricatural, na cara, até que essa gente começa a aparecer dizendo coisas como: “É isso mesmo que tá acontecendo”. “Genial!” “É engraçado!”. Aí eu fiquei tipo: “Ahn?” Ainda maisE levando em conta que o filme pegou muito pela comparação que se faz dele com a pandemia, mais até do que pela comparação com os problemas climáticos. Então fico pensando se a recepção talvez não tenha sido lá tão óbvia quanto pode parecer.

DD: você viu isso onde, em blogs de direita, vídeos de direita?

JM: Isso. Por exemplo, o Mamãe Falei, comparando a cientista que descobriu o cometa com, nas palavras dele, “a gente” (ele, o MBL, os seguidores dele). Ou mesmo o que eu  já citei antes, Roger, [mas acho que você não citou] aquele músico de QI nas alturas, que é negacionista, bolsonarista, que se identificou com o filme.

DD: mas dizendo que é isso mesmo o quê?

JM: Dizendo que o filme está do lado dele, que o que o filme diz, é o que ele e os dele estão vivendo, como se estivessem do lado da razão. Eu não sei como é que eles veem isso, mas veem…

DD: Estão vendo outro filme, literalmente.

JM: Estão vendo outro filme. Se o filme me parecia tão óbvio, uma comédia pastelão, e mesmo assim despertou esse tipo de reação, então como é que fica? Déborah falou do outro lado da recepção, a que fica dizendo que o filme não é filme de arte. Os críticos que eu vi até aqui falaram mal do filme, sempre dizendo que ele não é bom, porque a direção é muito isso, a iluminação, aquilo. Eles não pareciam interessados no filme, mas em como o filme foi iluminado, dirigido, capturado. O que é um filme pra essa gente? Eu mesmo não sei […] Mesmo que o filme seja de arte, como parece ser o caso de Ataque dos Cães ou de A Filha Perdida, ainda assim, fico com a sensação de que quem faz resenha crítica, pelo menos essa resenha crítica que eu vejo na internet, assiste é a outra coisa. Eles parecem querer saber sobretudo como é que a imagem foi captada, como é que a coisa toda foi feita tecnicamente, do que apreciar o resultado.

DD: Alguns disseram que os personagens gritam muito, no sentido real e metafórico, que não precisavam ser assim tão diretos, ficar gritando. A maioria das resenhas que eu li foram críticas. Quem falou bem foram justamente, em geral, os cientistas; e o George Monbiot. Não sei se vocês viram mas o Monbiot escreveu que se sentiu como se fosse ele, ali representado. Disse: “Eu senti como se a minha vida tivesse passado como um flash pela minha frente.” Contou – ele é super dramático – que em novembro de 2021, portanto tipo um mês antes do filme estrear, ele foi entrevistado em um programa na TV britânica chamado Good Night Britain [4], junto com a jornalista Dawn Neesom, sobre um protesto do Insulate Britain, um grupo de ativistas, em que eles bloquearam uma via importante de Londres, não deixavam os carros passsarem, as pessoas aparentemente ficaram revoltadas porque tinha gente doente querendo ir pro hospital e não sei mais o quê. Nove ativistas foram presos, e o Monbiot defende o grupo. A COP de Glasgow tinha acabado de acontecer, e, como sempre, não resultou em praticamente nada, e Monbiot diz que os ativistas do Insulate Britain são mártires, que foram presos “enquanto agiam na esperança de criar um mundo melhor para todos”, sacrificando-se pelos outros, protestando para “impedir a maior crise que a humanidade já enfrentou, que é o colapso ambiental.” Mas tanto os dois entrevistadores como a outra jornalista no debate ficavam repetindo que os ativistas não souberam escolher a forma correta de ação, que 72% do público foram contra, “que eles acabaram colocando o público contra eles” Enfim, nesse artigo o Monbiot diz que no programa ele acabou chorando, e de fato tem uma hora em que ele começa a chorar muito, não consegue se controlar e cai em prantos. Então é igual ao filme. É desesperador para quem está envolvido nisso, porque, é isso, ele ali tentando dizer, igual ao que aconteceu no filme, ele tentando dizer: Mas eles fizeram isso porque é gravíssimo o que está acontecendo, “é o fim de tudo”, e é isso que temos que fazer, tem que interromper o trânsito. Vale a pena ler esse artigo dele e assistir ao programa, para ver o desespero dele e como é realista a representação que é feita no filme. Agora, de fato, Zé Márcio, é desesperador também constatar que não adianta nada. Se a gente pergunta “Serve pra alguma coisa?”, “Adianta pra converter as pessoas?” Provavelmente não, mas o que adianta? Nada serve e tudo serve, não é isso? Tudo isso vai compondo, quando as pessoas vão começando a falar daquilo, vai-se criando um …

JM: O que é estranho pra mim é: em que medida o danado do filme foi recebido como o que pretendia ser? Tipo: se tomamos um filme, uma comédia em que tudo parece estar às claras, tudo é (supostamente) evidente, e ele é mal compreendido, é – pior! – entendido como o oposto do que pretendia ser, então… Imagina se fosse um filme de arte! Se tivesse nuances, se desse a entender muito mais coisa, aí é que ía lascar mesmo!

ER: Eu recebi um meme há alguns dias – e os memes são muito interessantes, a linguagem dos memes nos traz muitas pistas para entendermos, por exemplo, isso que o Zé Márcio está dizendo. Esse meme é com o Bolsonaro. O filho Eduardo chega e pergunta: “O que você está fazendo, pai?” O B: “Eu tô vendo um filme.” O filho: “Um filme?!” B: “É, tá todo mundo falando deste filme. É com aquele ecochato que fica falando de aquecimento global e fala mal de mim, pombas! Mas tão dizendo que esse filme aqui parece demais com o meu governo, então eu tô querendo ver o que é que tá todo mundo falando.” Aí eles resolvem assistir ao filme juntos e morrem de rir o tempo todo e tal. Aparece a presidenta dos EUA e eles : “Aí a Dilma! Que absurdo, ela não vê que o planeta vai explodir.” Então continuam assistindo ao filme e se perguntando a que horas vai ficar parecido com o governo dele. Lá pelas tantas ele recebe a notícia de que um meteoro vai se chocar com a Terra em 10 minutos. E esperam dele, como presidente, uma atitude. Mas a reação dele é: “E daí? Todos morreremos um dia.” Ele sai de fininho e foge em uma nave sem o filho. E o filho: “Droga, não acredito que o mundo vai acabar e eu não vou descobrir o que esse filme tem a ver com o governo do papai!” Então, é interessante ver as reações que eles têm, os comentários sobre as cenas, fazendo críticas e outras associações. Se é presidenta, então é a Dilma. E acham um absurdo tudo que a personagem faz. Enfim, acho que isso tem a ver com o que o Zé Márcio trouxe… 

TA: Certamente a nossa própria descrença frente a esse tipo de reação demonstra se tratar de uma disputa que não diz respeito somente aos fatos, mas sobre como ver e as maneiras em que somos coletivamente condicionados a ver, mas talvez de um modo não mais circunscrito à ideologia. Apesar desse desacordo sobre o que ela significa, concordo que o filme possui uma mensagem determinada que os roteiristas e o diretor desejam transmitir, um sentido de responsabilidade. 

JM: Eu lembrei logo de cara de duas coisas, assim que vi o filme. A primeira foi aquela tira de Laerte, aquela famosa da ficha caindo. E a segunda foi o seguinte: acho que eu passei a adolescência inteira vendo esses filmes de catástrofe e desejando um em que a catástrofe acontecia de fato. PIsso porque, em todos os filmes de catástrofe que eu vi, ela acontecia sem acontecer. Na verdade uma parte da catástrofe acontecia pra que se tivesse uma cena impactante, mas, no fim, o mundo era salvo por alguma ação dos mocinhos. Só que quando eu vi isso finalmente acontecer, eu achei que, ainda que fosse uma comédia, o momento em si foi altamente melancólico. Eu achei muito pesado. O momento em que tudo começa a acabar, e a galera tá comendo, conversando, nesse momento o filme “perdeu a graça”. Ele perdeu totalmente a graça, pra mim.

Laerte, 2013.

DD: Aquilo (a cena da ceia) não é piada, é um momento sério, e esse contraste também é legal.

ER: Eu gostei do filme. Eu li um artigo do Instituto Humanitas, da Unisinos (IHU Online), do Pedro Luiz Cortez sobre o filme, chamado “Não olhe para a esquerda: comentário sobre o filme Não Olhe para Cima” [5]. O artigo foi publicado originalmente no site Traduagindo, e reproduzido por A Terra é Redonda. No artigo o autor chama a atenção para o fato de que, no fundo, quem manda e define os rumos do mundo nem são os grandes líderes necessariamente, pois por trás deles tem todo o grande capital, que é quem comanda efetivamente. E o texto chama a atenção para como isso se dá no filme: aquele personagem Peter Isherwell, que eu achei impressionante e assustador, quase um personagem de terror, que é o magnata da empresa de tecnologia, interpretado pelo Mark Rylance – é ele quem, no final das contas, decide e comanda o que vai ser feito. Tem muita coisa no artigo, mas tem um ponto que me chamou atenção, o autor menciona algo que o incomoda em relação ao filme, que é o fato de ele parecer mostrar o povo sem agência…

DD: Sim, as coisas se passam só no nível do poder.

ER: Tem muita coisa para comentar no filme, eles colocaram um pouco de tudo do que a gente está vivendo. 

DD: Pois é. Eu vi também ali várias citações de outros filmes de catástrofe. Por exemplo, o 4:44, que tem também uma proliferação de telas – TV, Skype, net –, tem também o negacionismo. Tem o Dr. Strangelove, do Kubrick. Na hora daquelas imagens congeladas das pessoas comuns na rua fazendo coisas enquanto a gente vê que o mundo já está explodindo – e por isso sabe que elas em 1 ou 2 segundos explodirão também – isso me pareceu vir do Fail Safe, do Sidney Lumet….

TA: Em 4:44, por exemplo, Cisco, o personagem principal, fica em frente à tela assistindo ao Dalai Lama, como em uma conexão espiritual com as imagens que estão mediando o final do mundo para ele. Há uma dependência em relação às imagens, que também lembra um pouco a centralidade que Don’t Look Up dá aos meios de comunicação e à mídia. Eu acho que o Abel Ferrara tem feito os melhores filmes apocalípticos: 4:44 e agora o Zeros and Ones. Eu acho que esse último é o primeiro filme que reflete, de maneira muito dura, a pandemia. O filme retrata uma situação de isolamento e ameaça de terrorismo biológico, nunca se está certo do que se passa, as ruas vazias… E é claro que ele já tinha feito algo parecido na década de 1990, naquele filme do Body Snatchers, sobre uma invasão alienígena e também em New Rose Hotel

DD: Body Snatchers tem uma refilmagem do Abel Ferrara? Eu só vi o original.

TA: Sim, acho que de 1993 [no Brasil, Os Invasores de Corpos]. O original é da década de 1950 [1956, Invasion of the Body Snatchers, de Don Siegel.] Ferrara atualiza o filme pra criticar o complexo industrial-militar, mostrar que a poluição e a destruição da espécie resultam tanto das ações do complexo industrial-militar quanto da “vida falsa” – para utilizar a formulação de Adorno – que se leva no capitalismo, que é algo um tanto raro de se ver nesses filmes, eu não acho que um filme como Don’t Look Up chega perto de algo assim. Se considerarmos a trajetória dos filmes de catástrofe mais recentes rastreando sua matriz, eles na verdade são refilmagens – essa é uma ideia brilhante de Nicole Brenez [6]– de Uma verdade Inconveniente, o documentário com o Al Gore, de 2004. Mas, para mim, o que distingue Don’t Look Up de Uma Verdade Inconveniente é que o primeiro aponta que há algo de errado, não necessariamente com o grande capital como indicou agora pouco a Elisa, mas que os conglomerados de comunicação não estão agindo de boa fé em relação aos cidadãos, que eles estão totalmente corrompidos. Ao menos entre os filmes de catástrofe dos quais me lembro, isso é algo singular. Assim, é menos o nosso modo de vida que parece estar na fonte da concretização da catástrofe do que uma quebra na comunicação, de modo que resta por todos os lados sinais trocados e invertidos, e isso de algum modo se repete na recepção do filme pelo público.  Mas, fiquei pensando em outra coisa que você falou, Elisa, sobre a falta de ação das pessoas, dos cidadãos, seu comentário de que no filme não aparecem movimentos sociais. E é interessante, recentemente assisti ao último Matrix, não sei se vocês viram…

JM: Eu vi. Eu gostei muito até bem pertinho do fim. Quer dizer, eu gostei do filme, não gostei foi das cenas de ação; mas do filme, do que é dito no filme eu gostei bastante. Inclusive, acho que até um determinado momento, ele foi o melhor Matrix pra mim; mas só até a ida deles pra tentar salvar Trinity – sem querer soltar spoiler, mas…

TA: Não sei se isso é um spoiler, mas no filme mais recente as personagens se dão conta de que não há mais referente fora da Matrix. Isso as libera da tarefa de passar para qualquer fora, o  que não significa que nada mais é possível. Pelo contrário, elas precisam agora lidar com os códigos da Matrix de maneira criativa, estabelecendo uma simulação que seja mais adequada aos desejos das pessoas. De certa forma isso me parece ainda mais difícil em termos de responsabilidade e agência coletiva. Há aqui um borramento muito curioso entre a realidade e a ficção, nesse sentido Matrix 4 é para mim um filme pós-modernista de uma maneira que os anteriores ainda não podiam ser.  Em Don’t Look Up a nossa realidade é retratada como mais bizarra que a ficção, porém a quebra da unidade do sentido desencadeia uma crise caótica, e a instabilidade daquilo que é real é enxergada de maneira pessimista, assim eles estão sempre tentando apontar para um fora – “Olha pra cima!” – o filme clama por um fora, mas a comunicação não funciona…

DD: Olha pro fora que está entrando, entrando de fora aqui dentro…

TA: E as pessoas continuam em uma passividade danada. Talvez isso tenha a ver com o fato de que o filme se trata de uma sátira de como a mídia funciona hoje, os jornais, e não só uma alegoria dos cientistas do clima tentando explicar algo que foi descoberto a duras penas em uma linguagem simplificada.

DD: aliás, Tiago, você viu uma entrevista, uma emissão da rádio France Culture (Don’t Look Up : l’apocalypse), em que alguém conta que eles puseram um doublé no filme, quando o personagem do Leonardo Di Caprio está escrevendo uma equação no quadro? É um cientista de verdade, Michael Marsset, quem escreve a equação, porque ele não podia errar, qualquer erro ali seria muito grave matematicamente falando, então tem um cientista que escreve e sabe o que está fazendo… Eu achei engraçado, porque nunca tinha pensado que houvesse esse tipo de doublé [7]

TA: É também muito curioso como o filme se parece com um videoclipe ou um longo sketch de comédia, uma linguagem facilmente reconhecível. Mas me pergunto onde termina a sátira e onde ele é reabsorvido pela própria gramática da mídia de massas, que possui limites. Quer dizer, ele também faz parte da linguagem mainstream, e expressa até mesmo uma certa nostalgia pela linguagem compartilhada da indústria cultural que detecto na recursividade de um humor meio Saturday Night Live. É como se ele nos dissesse de certo modo: “Não eram tão mais divertidos e simples os tempos em que nós apenas sentávamos em nossos sofás no sábado à noite e ríamos das mesmas coisas? Agora parece que nós é que nos tornamos a piada pública. Podemos até rir disso, também,  mas isso vai acabar em lamento – e para todos”. Essa cumplicidade com a gramática da mídia de massas e com o pastiche pós-moderno vai contra o clamor político do filme por um referente real que está ‘lá fora’, de modo que ele permanece dentro de uma rede de referências familiar característica dos próprios projetos autoritários e do modo de vida único.

JM: Foi interessante você citar Matrix porque, a gente pode pensar, será que há um lado de fora pra quem assiste a Don’t Look Up? Quando eu vi negacionista se identificar com o filme, parecia que ele, o filme, tinha dado um salto pra fora dos seus limites, pra cobrir também mundo real, sabe? Até o jeito como parte da crítica de cinema recebeu o filme parecia apontar também pra isso. Eu vi o filme e depois vi uma galera altamente tosca negando o filme, ao se identificar com ele, do mesmo jeito como o filme critica os que negam a ciência. Vi uma crítica de cinema interessada menos nos efeitos que ele podia causar do que pelo modo como as imagens foram captadas, como foi iluminado, editado, atuado. Parecia mesmo que eu tava vendo o próprio filme dentro do filme, dado o rastro de absurdos que fui vendo.

TA: É, então, mas talvez isso reflita – talvez, é uma possibilidade – a reabsorção do filme nessa própria gramática da mídia que ele está satirizando, o que apenas aprofunda as divisões ao reforçar o que já é familiar e esperado por parte do público.

JM: Por outro lado, se ele tem alguma coisa a dizer, o que danado ele tem pra dizer? Eu fiquei tão angustiado com o final que meio que pensei que o que o filme tinha a dizer era isso: que fodeu tudo! Convivam com isso!

DD: Eu acho que o que ele quer dizer é “Look up!”, não é?

JM: Já eu achei que não, eu achei tão angustiante aquele final que eu fiquei com a sensação quase de que era um final cínico, tipo “Danem-se!”. Só quem sobrevive no final é a inteligência artificial – que até previu como a presidente iria morrer.

TA: Mas depois dessa cena tem os créditos e no final dos créditos tem outra cena, tipo um interregno, que é tipo a ruína, e da ruína sai o filho da Meryl Streep, que sobreviveu e está ainda procurando a mãe dele, e a mãe dele pegou a nave… Ele está procurando a mãe dele na Terra, e grita: “Eu acho que sou o último homem na Terra!” Ou algo assim. E aí o filme acaba de fato.

JM: Eu não vi isso, mas é ainda pior. A merda é que o pior sobreviveu. Do lado de fora da Terra sobreviveu a inteligência artificial, do lado de dentro, aquele canalha.

DD: Isso é legal, porque o filme não termina, como termina o Uma Verdade Inconveniente, do Al Gore, dando soluções. Se bem que a solução que teria – e isso é esquisito no filme – é uma grande solução tecnológica, high tech. Não mostram nenhuma outra: ação da esquerda, ou pequena agricultura, nada disso entra, até porque o filme só pega as coisas mais caricaturais. Mas ele não cai nessa ideia de que tudo vai se solucionar, eu acho que não.

TA: A mim pareceu assim: Se tivesse seguido o primeiro plano, o da NASA e dos militares, aí talvez tivesse uma solução tecnológica. Mas com a proposta bizarra da BASH, em que na verdade o CEO da empresa propõe a mesma solução que o capital financeiro e a bioeconomia propõem para a crise, isto é, diferir e especular sobre a mera possibilidade de expansão da extração de energia futura, o filme não fecha junto. No entanto, se tivessem optado pela solução da NASA, talvez houvesse alguma possibilidade de um fix tecnológico. É claro que a NASA do mundo real não está em oposição à essa expansão de limites, basta olhar o seu programa de biologia espacial [8].   

DD: Sim, teria solucionado o problema ali, e isso é que eu acho meio esquisito no filme. Mas não teve essa solução, e então, fora disso, não vai ter nada, e não vai ter nada pra esses caras também, tanto pro filho da presidente quanto pro pessoal no outro planeta. Eu entendi assim, e isso que eu achei legal no filme. O Elon Musk não vai sobreviver em Marte. Ela morre primeiro, mas os outros vão morrer também. O algoritmo previu que ela ía morrer, mas todo mundo vai morrer, ele não previu tudo. Eu achei assim.

ER: Eu também tenho essa sensação. E eu acho assim: no filme, são seis meses: descobrem o meteoro, e eles têm 6 meses para que os líderes mundiais tomem uma determinada providência, que pode dar a chance de sobrevivência. Eu acho isso uma alegoria, porque o que a gente tem escutado, e com a COP etc, é que são 8 anos que nós temos para reverter o aquecimento global, não é mesmo? Enfim, nós temos, pela ciência, um prazo.

DD: Esse já é um prazo simplificado, pra tentar levar os governos agirem politicamente com base nele. Isso aí na verdade não existe, é só a tal “janela” de ação, que vai diminuindo, diminuindo, e que, pelas primeiras formulações, já passou. Tem o ruim, o pior, o péssimo… E a gente está provavelmente no caminho do pior.

ER: Pois é, mas o que eu fiquei pensando é que, como essa escala está sendo colocada, a humanidade tem X anos pra poder mudar o rumo etc…

DD: Eu não sei se ainda falam nisso. Ou melhor, vão sempre falar, vão sempre encontrar uma maneira de dizer: Tem X tempo. Mas o que as pessoas estão dizendo agora é que já não dá mais pra evitar passar de 1,5ºC…

ER: Mas só pra completar meu raciocínio, me pareceu que no filme tem isso, de termos X tempo para fazer tal e tal coisa; e, como de fato está acontecendo, sempre aquilo é postergado, porque ninguém quer abrir mão, as grandes companhias de combustíveis fósseis não querem abrir mão dos lucros, as transnacionais não querem abrir mão da escala de produção e de lucro… Não sei se eu estou sendo muito simplista…

DD: Não está não, mas é que, como fazem todos esses filmes: pegam um evento único – o 4:44 é isso, o Melancholia é isso, embora o Melancholia estivesse falando do “fim do mundo”, mas não necessariamente do aquecimento global, o 4:44 me parece que estava mais ligado nisso. Mas é isso, quando você escolhe um evento catastrófico nesse sentido, em que há uma ruptura, eles fazem isso porque é uma maneira de tornar mais visível. Acho que foi essa a escolha: entre representar aquilo que é difícil de ser enxergado, porque é “lento”, espalhado, ou condensar num objeto único, que é o meteoro e o momento único em que ele vai atingir a Terra. Então fica mais visível. Só que o filme mostra que, ao contrário do que eles achavam, que se dissessem que estava chegando um meteoro todo mundo ia perceber, ia olhar pra cima, as pessoas só olham quando ele já está entrando mesmo, quando já acabou.

TA: Ainda não sei o que pensar do final do filme, essa comparação com Melancholia foi boa porque você tem aquela cena bem tocante com as irmãs e a criança numa espécie de tenda ou cabana, uma estrutura feita de galhos, um espaço de proteção…

DD: É a mesma coisa quando eles se dão as mãos em Don’t Look Up… Pois é, essa cena final eu acho que lembra a cabaninha em Melancholia, todos estão reunidos ali para fazer uma coisa que você não sabe muito bem o que é, mas é alguma coisa…

Melancholia de Lars von trier, 2009.

ER: E tem a questão da comunidade, do estar junto. Em Don’t Look Up eles se reúnem em volta de uma mesa. Eu acho também que tem alguma coisa que funciona como a cabaninha de Melancholia…  Por que uma cabaninha? Não seria uma referência aos povos indígenas, à cosmovisão indígena? Já em Don’t Look Up o algoritmo disse “você vai morrer sozinho”para o cientista…

DD:  E ele não morre sozinho.

ER:  Não morre sozinho. Ele volta para casa e reúne as pessoas, preparam uma refeição e se sentam em volta de uma mesa. Eu achei tão bonito aquilo, eles juntos, reunidos, puxando da memória momentos importantes, o que os afetou de alguma maneira.  Achei bonito…

DD: Eu me lembrei agora, a única coisa política, sem ser no sentido da alta política, que tem no filme é o grupo de esquerda lá, esquerda não, dos jovens ali né…

ER: O grupo formado pelo jovem Yule, interpretado pelo ator Timothée Chalamet?

DD: O rapaz que é meio punk, meio… Então, ali tem uma coisa que é a única coisa que sai…

ER: Do sistema…

DD:  Ele diz as palavras no final, não é isso? Diz as preces…

ER: Esse grupo do personagem Yule parecia ver a situação de um outro ponto de vista. Em torno da mesa, é o Yule quem diz as palavras.

JM: Isso da mesa e da cabana me lembrou um platô de Mil platôs [de Deleuze e Guattari] que está no quarto livro, que é o conceito de Ritornelo. O platô tem uma pegada meio cosmológica, e eles usam o exemplo da criança que está em uma situação de tensão, de estresse, quando parece que tudo vai se acabar, e aí ela começa a cantar sozinha. E a canção cria um ambiente de conforto, que é onde você fica pra poder… tanto se isolar, criar uma proteção, por mais frágil que ela seja, do mundo externo que está desabando, quanto pra você saber o seu lugar,… se centrar. Tanto na cabana em Melancholia quanto a mesa no final de Don’t Loook Up, eles são muito isso… O retorno a essa tentativa de, na hora do caos, criar um lar…

ER: Um refúgio.

Don’t Look Up de Adam McKay 2021.

DD: No filme Guerra dos Mundos (2005) – não sei se vocês viram a versão de Steven Spielberg – a menina tem um ataque de pânico dentro do carro, quando ela e o irmão estão fugindo com o pai; e o irmão então faz com ela um exercício que ele sempre fazia quando ela entrava em pânico, de criar imaginariamente um espaço dela, um ritual pra acalmar.

JM: O que eu acho curioso no platô lá,  se eu não me engano – faz muito tempo que li – é uma espécie de analogia, que seja, mas como é assim que o próprio mundo é construído. Em que medida aquele lugarzinho frágil, daquele momento, a cabana ou mesa não é o próprio lugar em que a gente vive, a própria Terra, você está entendendo? Sei lá, talvez tenha alguma coisa, um embrião de uma ética, sabe? Como é que se vive na Terra já que é um lugar tão frágil…

DD: Um envelope.

JM: Era pra ser um modo de se viver comunitário. Era pra ser um modo planetário de se viver e não… a gente faz o contrário. O nosso modo comum de viver no planeta, a gente desconsidera que o lugar é frágil e aí, quando vai tudo embora, é como se nada tivesse valido a pena. Que é o inverso do que rola na mesa lá e na cabaninha, porque, embora na mesa e na cabana as pessoas saibam que estão à beira do final, o que se está falando ou fazendo ali dentro importa muito.

ER: Muito interessante. Gostei. Eu me lembrei de uma fala do Antônio Nobre, autor do relatório O Futuro Climático da Amazônia, que diz mais ou menos o seguinte: se daqui da superfície da Terra nós subirmos 8 quilômetros, não teremos oxigênio para respirar. Se percorrermos 400 km, que na superfície é a distância entre Belo Horizonte e a cidade do Rio de Janeiro, em uma linha reta vertical, nós estaremos no espaço exterior, em um ambiente que não suporta a vida. A atmosfera é uma casquinha. Vivemos em uma casquinha.

DD: Essa questão da verticalização da vida é importante na história da vida Terra também… as plantas, como é que elas se verticalizaram? Foram encontrando maneiras de subir, mas não muito. Isso me lmbra o Gabriel Tarde também, quando ele fala da altura das cidades, da altura dos povos, da pequena altura dos chineses… Como é que os organismos crescem e não podem crescer além de um certo  limite, isso é bem interessante…

TA: Algo que eu acho interessante de pensar nesse final de Don’t Look Up é como, nos momentos finais, o diretor vai associando os objetos com as pessoas. É um toque interessante, acho que dá pra pensar essa relação no Antropoceno, nosso apego aos objetos. No final, quando tudo explode, daí vemos vários objetos voando no espaço, e nos créditos cada ator é associado a um objeto, é enfatizada essa ligação meio que afetiva com os objetos…

DD: Tem uma notinha que o Deleuze faz sobre o Beckett dizendo que até os mendigos têm as suas coisinhas. A possibilidade de você não ter as suas coisinhas é, enfim…  o horror total, né?

TA: É ao mesmo tempo objeto pessoal e debris, destroço da explosão de tudo…

DD: Usando o termo do Sloterdijk, é o fim dos envelopes, das bolhas, das esferas…

ER: Uma última pergunta que eu queria fazer, pegando o link do que falou o José Márcio que eu achei muito interessante: A Donna Haraway escreve no artigo “Antropoceno, Capitaloceno, Plantationoceno, Chthuluceno: fazendo parentes” [9] sobre criar refúgios…

DD: É da Anna Tsing, eu acho que é da Anna Tsing essa ideia, mas a Haraway cita.

ER: De qualquer maneira, neste ensaio, Donna Haraway fala assim: “uma maneira de viver e morrer bem, como seres mortais no Chthuluceno, é unir forças para reconstituir refúgios.”

DD: O que eu me lembro que a Anna Tsing fala sobre as plantations – mas não estou sendo muito precisa – é que elas seriam já uma primeira concretização do Antropoceno, no sentido de que a monocultura, de cana, café etc, arrasa a diversidade biológica daquelas paisagens, e o pior é que faz isso usando mão de obra escrava. Mas ali ainda havia condições – diferentemente das monoculturas de hoje, que utilizam por exemplo sementes transgênicas regadas a agrotóxicos, são mecanizadas e portanto empregam pouca mão de obra, com salários baixíssimos –, os escravos tinham condições de plantar suas coisinhas no meio daquelas grandes plantações. Então ali se criavam pequenos refúgios de biodiversidade e de um outro modo de vida; e é daí que ela tira a ideia de que a gente já vive em ruínas e vai viver cada vez mais nas ruínas, mas que a gente tem que aprender a viver nas ruínas, ou seja, criar refúgios nas ruínas. E de certa forma a  cabaninha do Melancholia é um refúgio nesse sentido.

JM: Imagine que você tá numa situação em que você sabe que vai acabar, e a sua atitude ética é meio que dizer “Ok, vai acabar”, e a partir disso você cria um mundo em que se pode viver enquanto não acaba… Você pode ver isso como algo absolutamente depressivo ou pode ver como positivo, no sentido de que você tá criando ali, no meio do fim, condições de afirmar. Porque você só afirma porque sabe que vai acabar. 

DD: É só pra gente, pra nossa sociedade que você precisa achar que não vai acabar para poder…

JM: Isso, para poder levar à frente…

DD: Fazer essas porcarias. Quando (outras sociedades?) talvez convivam com a ideia de que “Olha, pode acabar, portanto é frágil, portanto vamos…”

JM: Tanto o mundo pode acabar como você pode levar para um sentido pessoal, “Eu vou morrer, todo mundo vai morrer, vivo sabendo que vou morrer…”

DD: “Mas não quero morrer comido por um Bronteroc [criatura carnívora que só existe no universo filme] como a personagem de Meryl Streep…

JM: E outra, isso é o oposto do que acontece com a galera até o momento em que ela percebe que o mundo vai acabar. A galera nega: “Ah, não vai acabar não”, ninguém quer olhar para cima, o mundo continua acontecendo do mesmo jeito, vamos continuar agindo como sempre foi e tal. Acho que aí é completamente diferente, porque eles [os que estão à mesa] continuam vivendo em um mundo que está muito longe de ser o melhor mundo possível: você vai trabalhar, você vai ir… O mundo como ele tá ali pra gente, acordar cedo e trabalhar e não se preocupar com o que tá acontecendo com o planeta, o que tá acontecendo com o que for –  esse mundo é completamente diferente daquele que é criado ali dentro da cabana, que é criado na mesa… Acho que os dois mundos são diferentes, embora você possa enxergar a mesa dessa maneira depressiva, “Acabou-se, eu vou morrer, é isso aí… então vamos sentar aqui e esperar o mundo acabar”.

DD: Esse “a gente” é “a gente” aqui?

JM: Não a gente aqui, mas “a gente” todo mundo. Talvez o horizonte, vamos dizer, positivo que os cientistas querem ao dizer “cuidado, senão vai tudo acabar”, talvez o que eles queriam seria transformar a Terra inteira na “cabana”, sabe? Fazer com que a ética a partir da qual a gente vive, que ela fosse parecida com aquela ética que se vive naquela “cabana”, em volta da mesa, quando você sabe que vai acabar, mas que você pode viver melhor, então joga fora e abandona tudo aquilo que te faz… que faz com que a vida seja pior…

DD: Você está sendo bem otimista em relação aos cientistas…

JM: Claro, estou simplificando, o horizonte otimista da coisa talvez fosse esse: você querer transformar a Terra na “cabana”, e na Terra a partir de uma ética que não fosse essa que a gente tá vivendo…

DD: Terranos, né.

JM: Terranos. No fim das contas, é isso.

DD: Fiquei pensando… se o filme dá margem a tantas interpretações, inclusive de bolsonaristas, será que significa que – se for o caso de querer passar uma mensagem com o filme –  deveria necessariamente ser um filme sobre a mudança climática e não sobre um meteoro, não sobre a Era do Gelo ou A Nova Era do Gelo… Digamos, é ruim para isso o fato de não ser literal?

TA: Eu acho que… já existem filmes como O Dia Depois de Amanhã (2004), que veio um pouco na esteira do Uma Verdade Inconveniente, lembra? Em que congela Nova Iorque…

DD: Mas justamente, congela né, embora comece com o aquecimento global os efeitos são o contrário do que se espera – quer dizer, podem acontecer na verdade, porque se parar a corrente do Golfo, ali, vai gelar a Europa. Mas assim, o resultado ali grosso modo era uma Nova Era do Gelo, né? Mas, de fato, começa com o aquecimento global. Qual outro filme que tem assim… quase não tem filme de aquecimento global…

TA: Tem o Geostorm, um filme sobre geoengenharia com o Gerard Butler, que fala de mudanças climáticas. De qualquer forma, Don’t Look Up está refletindo essa realidade na qual, para citar Kellyanne Conway (conselheira de Donald Trump), existem “fatos alternativos”, basicamente pra qualquer evento se pode criar um “fato alternativo”, você sempre pode distorcer uma mensagem. Não acho que se o filme fosse ainda mais explícito…

DD: Não é esse o problema, né?

ER: Também acho que não. Vão se apropriar de qualquer maneira, nessa lógica dos “fatos alternativos”.

TA: Pode parecer um sonho utópico, mas ainda estou à espera de um filme que retrate uma outra dimensão da relação do cientista com o público,  seria um filme que tocaria na ferida que de fato está em jogo politicamente para os cientistas, isto é, no abandono da neutralidade científica. Já no livro Diante de Gaia Latour falava dessa outra abordagem, que seria a de afirmar a parcialidade daquele ou daquela que toma como missão “representar as vozes dos oprimidos e do desconhecido” de agir e se mostrar de modo não-circunscrito às instituições ligadas ao Estado-nação, isto é, de se colocar perante o público como alguém empenhado na possibilidade de outra relação política e cosmológica. Se trata de uma abordagem totalmente diferente. Talvez seja pedir demais uma representação dessa outra possibilidade por parte de Hollywood [risos]. Em Diante de Gaia o Latour chega até a citar uma fala da peça Gaia Global Circus, de Pierre Daubigny e do grupo dele, em que uma cientista se dirige a um “cético” do seguinte modo: “Diga aos seus mestres que os cientistas estão em pé de guerra!” Não é possível simplesmente se abster na guerra de mundos, nem mesmo para aqueles que outrora se abrigavam na ilusão de uma objetividade acima de qualquer disputa política.

DD: De certa forma, o filme mostra vários mundos que a gente não quer, o mundo dos nossos inimigos… Do Elon Musk, da televisão…

ER: Do espetáculo…  Foi ótimo, muito bom. Muito obrigada pela discussão. Tiago, José e Déborah sempre um prazer imenso.

Participantes:

Déborah Danowski – Professora emérita da PUC-Rio.

Elisa Rezende – Professora da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC-Minas.

Tiago Andrade – Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Filosofia na Universidade Federal do Abc.

José Márcio Fragoso – Pesquisador na UFPB.

Notas:

[1] https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/jan/13/director-dont-look-up-climate-crisis-ending.

[2] Desch 2021, “If a Humanity-Ending Asteroid Heads Our Way, Will Anyone Believe Scientists?”

[3] https://www.franceinter.fr/emissions/l-invite-de-8h20-le-grand-entretien/l-invite-de-8h20-le-grand-entretien-du-vendredi-07-janvier-2022. Entrevista feita em 7 de janeiro de 2022 por Nicolas Demorand e Léa Salamé. France Inter.

[4] G. Monbiot: https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/jan/04/dont-look-up-life-of-campaigning?utm_term=61d6daef6449b41c104f350f635f8182&utm_campaign=GreenLight&utm_source=esp&utm_medium=Email&CMP=greenlight_email. Trecho da entrevista no programa televisivo Good Morning Britain (18 nov 2021): https://www.youtube.com/watch?v=gJnxj6kiAKU.

[5] https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/615737-nao-olhe-para-a-esquerda-comentario-sobre-o-filme-nao-olhe-para-cima

[6] https://desistfilm.com/444-last-day-on-earth-abel-ferrara/

[7] Emissão Don’t Look Up, programa La Méthode scientifique, apresentado por Nicolas Martin, com Eric Lagadec e Simon Riaux, em 14 jan 2022. https://www.franceculture.fr/emissions/la-methode-scientifique/don-t-look-up-l-apocalypse-now.

[8] Space Biology Program da NASA: https://science.nasa.gov/biological-physical/programs/space-biology Ver também: “Life as Surplus: Biotechnology and Capitalism in the Neoliberal Era” (2011) de Melinda Cooper.

[9] “Diante de Gaia: Oito conferências sobre a natureza no Antropoceno” (2020) de Bruno Latour.

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