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Terranias e a urgência filosófica do Antropoceno — Entrevista ao blog da American Philosophical Association (em português)

O Terranias – Núcleo Transdisciplinar de Pensamento Ecológico está oficialmente lançando o seu site no mês de março de 2026!

Em comemoração, publicamos aqui versão traduzida de uma entrevista originalmente publicada em outubro de 2025 no blog da American Philosophical Association. Como parte da série “Reports from Abroad” do blog, a entrevista foi conduzida por André Penna-Firme. As perguntas foram respondida coletivamente pelos seguintes membros integrantes do Núcleo: Alyne CostaAna Paula MorelAnelise De CarliTobias MarcondeJoão Pedro SaddiCecilia CavalieriJoão Victor ConsoliÉter Monteiro, Lia Fonseca, Luiza ProençaMarconi FelintoMatheus Henrique Ferreira e Tiago Andrade. Agradecemos a André Penna-Firme pela confiança.

Terranias e a urgência filosófica do Antropoceno

Entrevista da série “Reports from Abroad”

O que a filosofia pode dizer — e fazer — na era do Antropoceno? Esta entrevista coletiva reúne membros centrais do Terranias, um grupo de pesquisa brasileiro dedicado a repensar a prática filosófica em meio aos desafios ecológicos e políticos do nosso tempo. Fundado em 2021 na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), o Terranias explora as interseções entre filosofia, ecologia, arte e política por meio de uma abordagem interdisciplinar e colaborativa. Nesta conversa, o grupo reflete sobre a urgência do pensamento ecológico hoje, a importância do diálogo entre saberes acadêmicos e tradicionais e a necessidade de pensar “a partir de fora” — a partir do Sul, das margens e da própria Terra.

  1. Falem um pouco sobre o grupo de pesquisa. Quando ele foi criado, e qual foi a motivação por trás de sua criação?

O Terranias foi criado em 2021, quando investigadores da linha de pesquisa “Filosofia e a questão ambiental” do Departamento de Filosofia da PUC-Rio de Janeiro realizaram um evento online para comemorar os 10 anos da linha de pesquisa. Estabelecida pela professora Déborah Danowski em 2011, foi a primeira no Brasil dedicada ao pensamento ecológico e aos problemas do Antropoceno. 

Desde o fim de 2019, Danowski e seus orientandes se reuniam para construir um espaço de discussão das pesquisas em filosofia ambiental, e a necessidade de pensar junto se tornou ainda mais premente durante a pandemia do coronavírus. No evento de 2021, marco de criação do Terranias, fizemos um balanço das pesquisas desenvolvidas na última década e lançamos as sementes para projetos futuros. Expandindo sua abrangência para além da filosofia, o grupo já nasceu como um espaço de experimentação coletiva reunindo também antropólogos, biólogos, artistas, historiadores e demais pessoas preocupadas com a questão ecológica, oriundos de diversas instituições e cidades. Hoje, o Terranias conta com 27 pesquisadores compondo seu núcleo de sustentação, mais cerca de 130 integrantes participando periodicamente de nossas atividades, que incluem grupos de leitura, cineclubes, seminários, atividades de extensão, realização de entrevistas e eventos.

  1. Qual é o significado do seu nome? Qual é o principal problema que pretende abordar?

O nome “Terranias” foi diretamente inspirado no poema-manifesto “Subterrânia 2”, escrito pelo artista Hélio Oiticica, em 1969 (anexo), no qual o  prefixo “sub” é reivindicado como afirmação da força estética-política dos mundos subterrâneos/debaixo/do sul. Essa operação simbólica pretende reverter a noção de “margem”, entendida como potência e invenção. “Terranias” é também uma referência aos terranos/terrestres (earthbounds/terrestrials), o povo invocado pelo filósofo Bruno Latour para enfrentar a catástrofe ecológica. E, ainda, uma tentativa de associar à palavra “T/terra” (pensada tanto enquanto planeta quanto como pedaço de chão e território) um sentido de errância (a marca visual do grupo expressa isso), de multiplicidade e de difusão — a própria Terra existindo por meio dos terrestres e agindo sobre eles e com eles, reinventando seus nomes, modos e percursos.

  1. Quais os desafios que a questão ambiental coloca para a reflexão filosófica e a produção de conhecimento no Brasil?

Podemos mencionar ao menos três grandes desafios que essa questão coloca não apenas para a reflexão filosófica no Brasil, mas também para o trabalho intelectual como um todo realizado no país e fora dele.

Em primeiro lugar, sob uma perspectiva histórica, vale notar que a “questão ambiental” se coloca, desde muito cedo, como um problema inseparável do próprio projeto político que constitui o Brasil. Estamos falando de visões colonialistas e desenvolvimentistas que foram impulsionadas, sobretudo, durante a ditadura militar brasileira, a partir da qual se promoveram o chamado “avanço da fronteira agrícola” e a “revolução verde” — processos que culminaram em verdadeiras devastações ecológicas e na dizimação dos povos da floresta. Apesar desse cenário, na academia o tema ambiental como uma questão-problema foi aparecendo de modo mais gradual conforme foram se acumulando as consequências não-antecipadas daquele projeto de desenvolvimento, cujo imaginário persiste até hoje nos variados espectros ideológico-políticos.

Segundo, temos ainda o desafio de cunho disciplinar. Nas Ciências Humanas e Sociais, a “questão ambiental” foi tratada por muito tempo de modo setorizado: a Economia regional, a Geografia e a Arquitetura tentaram, cada uma à sua maneira, lidar com as deficiências das políticas de desenvolvimento e suas consequências sobre a população. Também antropólogos e sociólogos do campo têm observado seus resultados sobre populações rurais e a intensificação da violência no campo ligada à propriedade da terra desde a ditadura militar. O desafio hoje é colocar em diálogo diferentes áreas de pesquisa, estabelecendo um campo de reflexão integrado no qual o problema se coloque também para as Humanidades, assim como para as Ciências da Terra e do Clima. Essas aproximações produzem fricções epistemológicas que precisam ser consideradas para que o debate interdisciplinar seja, ainda, aprofundado. 

Um terceiro desafio — singular, se pensarmos na produção de conhecimento no Brasil — é convocar a universidade para produzir composições com os saberes populares e tradicionais. No Terranias, procuramos cultivar pontes com movimentos sociais de base pela terra e pela soberania alimentar, nomeadamente indígenas e quilombolas. Essa aproximação exige de nós aprender a não presumir como universais nossos interesses e modos de vida, atentando para não reproduzir violências, apagamentos e práticas de desenraizamento da terra, para utilizar essa expressão de Antônio Bispo dos Santos. 

  1. O grupo é bastante interdisciplinar. Qual é a importância da abordagem interdisciplinar para o tratamento dos temas abordados?

A questão ambiental se apresenta como um problema que exige um posicionamento aberto ao diálogo entre diferentes campos do saber. Pensar filosoficamente sobre a crise climática implica reconhecer suas múltiplas dimensões e compreender que ela inaugura uma nova conjuntura espaço-temporal, que por sua vez demanda novas ferramentas de reflexão e ação. Daí a importância do trabalho interdisciplinar. Estamos diante de um desafio que afeta não apenas áreas específicas, mas a própria estrutura da ciência moderna, cujos métodos e saberes, tradicionalmente separados, hoje se veem atravessados por problemas que ultrapassam as fronteiras disciplinares.

A separação clássica entre o que se convencionou chamar de “Ciências da Natureza” e “Ciências Humanas”, por exemplo, perde grande parte do seu sentido em tempos como o nosso, quando as catástrofes e os desafios que dela emergem confundem e confluem as esferas, justamente, do que definimos como da ordem do natural ou do humano/social. Por um lado, os seres humanos, enquanto espécie, começam cada vez mais a serem percebidos como uma força de escala não apenas biológica e social, mas também geofísica ou mesmo geológica (que inspira o nome “Antropoceno”). Por outro, aquilo que geralmente definimos como pertencendo exclusivamente à ordem da  “Natureza” ou do “natural” não cessa de demonstrar como é constituído e atravessado por dimensões e elementos sociais, culturais e técnicos. 

Nesse sentido, parece haver uma dupla dimensão da complicação que se impõe  às ciências e à maneira como elas vêm sendo elaboradas, produzidas e praticadas. Uma dessas dimensões seria da ordem de sua estrutura organizacional interna, sua “fisiologia institucional”, referente às fronteiras tradicionalmente estabelecidas entre suas disciplinas, áreas de conhecimento, campos de atuação e nichos departamentais. A outra é da ordem das temáticas, das matérias, dos assuntos, ou seja, do conteúdo, por assim dizer, dessa estrutura organizacional. Neste último caso, como já mencionado, as catástrofes que se anunciam colocam problemas complexos que requerem, para sua plena compreensão, a articulação de uma série de saberes de campos os mais diversos. Assim, cada vez mais se torna evidente a incapacidade de tais questões serem facilmente alocadas sobre somente uma ou outra área de conhecimento. Assim, a própria questão ambiental demanda uma abordagem interdisciplinar, porque o tipo de problema com os quais lidamos prescindem da grande divisão Natureza e Cultura, são indiferentes a essa concepção moderna, ou mesmo, não se deixam capturar e domesticar por ela. 

Mais do que o encontro de diferentes perspectivas teóricas, a interdisciplinaridade nos exige conhecer diferentes procedimentos metodológicos que impactam na forma como entendemos o que pode ser ou não a contribuição de uma pesquisa. Talvez, a um primeiro olhar, uma resposta sociológica para os ouvidos de um filósofo não soe muito bem – tanto quanto uma formulação antropológica para uma pergunta biológica. A disposição interdisciplinar é aqui, portanto, a disposição para construir alianças – deslocar-se epistemologicamente de um ponto a outro, suportando os desconfortos que isso pode causar àquelas premissas e hábitos nos quais fomos treinados. Assim acreditamos que também estaremos ainda mais potencialmente abertos para entender e compor junto com saberes e cosmovisões – por que não filosofias? – não modernas.

  1. Qual a relevância desta abordagem para o debate filosófico no Brasil? E como os recentes acontecimentos políticos afetam o debate?

A relevância dessa abordagem para o debate filosófico no Brasil está em reconhecer que a catástrofe ecológica global só pode ser compreendida em sua complexidade por meio de uma perspectiva aberta ao diálogo com outras áreas do conhecimento, saberes tradicionais e movimentos socioambientais. Por isso, o Terranias tem como horizonte a pluralidade epistêmica e ontológica, o que demanda alianças para além da academia e, com isso, a abertura a novas práticas políticas (ou cosmopolíticas). Essa abertura cria fricções de fronteira que permitem situar a filosofia no âmbito do pensamento desenvolvido no Brasil e na América Latina – territórios atravessados por violências coloniais e raciais, mas também marcados por experiências de luta, aliança e resistência.

Seguindo Bruno Latour, entendemos que o momento presente exige que tomemos uma decisão entre modernizar e ecologizar – a eleição de líderes de extrema-direita em diversos países e os dilemas colocados pelo desenvolvimentismo são demonstração clara dessa bifurcação. Nesse sentido, a tarefa que se coloca ao Terranias é contribuir na abertura de caminhos teóricos, artísticos, políticos e imaginativos para a segunda opção, entendida como um chamado à reparação das violências passadas e presentes e convite à invenção de outros modos de habitar a Terra.

6 – Qual a relevância dos saberes dos povos tradicionais para o debate filosófico no Brasil, e como lutar contra a sua invisibilização? How relevant is the knowledge of traditional peoples to philosophical debate in Brazil, and how can we combat its invisibility?

Diante do agravamento do colapso ecológico e do avanço do extrativismo, assistimos à multiplicação de protestos vindos dos “povos tradicionais” contra a destruição da vida. Como há séculos alertam estes povos, essa destruição não atinge apenas os humanos ou aquilo que os herdeiros da modernidade chamam de “Natureza”, mas também seres que não podem ser bem enquadrados na divisão Natureza-Cultura.

A emergência pública dessas vozes e lutas ressoa também no campo filosófico no Brasil, que vem sendo convocado a compor com saberes tradicionais historicamente invisibilizados. As consequências de tal  exclusão, profundamente vinculada à hierarquização colonial que pressupõe os modos de existência e conhecimento tradicionais como inferiores, se fazem sentir em muitas dimensões:  aqueles povos foram e continuam sendo alvo de múltiplos etnocídios e epistemicídios em diferentes escalas no Brasil e no mundo.

Nas últimas décadas, porém, acompanhamos uma mudança significativa: a presença crescente de indígenas, quilombolas, caiçaras e outros povos tradicionais nos espaços institucionais. Essa inserção tem possibilitado diálogos pautados na pluralidade epistemológica, abrindo caminhos para novas formas de pensar e agir comprometidas com a justiça climática e o enfrentamento do racismo ambiental. Suas contribuições têm sido fundamentais, especialmente nas reflexões sobre as relações com a terra e na formulação de diferentes propostas de transição ecológica e civilizacional. Tais propostas apontam alternativas ao paradigma do “desenvolvimento”, trazendo conceitos como o Bem Viver, a relacionalidade e o comunal.

A produção filosófica no Brasil, antes fortemente ancorada em referências estrangeiras, sobretudo do chamado Norte Global, encontra-se agora diante do desafio de composição com pensamentos dos coletivos extra-modernos. Nesse contexto, destacam-se vozes como Ailton Krenak, Nego Bispo, Célia Xacriabá, Davi Kopenawa, entre outros, cuja presença desloca não apenas os referenciais teóricos, mas também a própria prática filosófica. As novas formas de produzir pensamento, fundadas em pressupostos distintos da modernidade ocidental, têm o potencial de provocar rupturas profundas no campo filosófico e de questionar conceitos cristalizados pela tradição moderna.

Nesse sentido, compor com esses saberes significa reconhecê-los como legítimos, mesmo – ou especialmente – quando eles nos obrigam a transformar radicalmente os fundamentos da prática filosófica; quando, por sua mera existência, exigem que repensemos o que entendemos por temporalidade, por conhecimento, por realidade, etc. 

Levá-los a sério implicaria um esforço cosmopolítico, no sentido proposto pela filósofa Isabelle Stengers, eliminando a possibilidade de enquadrá-los como mera variante cultural, nos obrigando a sentir o desconforto real de ver nossas categorias mais básicas questionadas e tornadas incertas diante dessa diferença de fato ontológica – e ao mesmo tempo nos mostra como essa mesma transformação pode torná-las algo muito mais interessante.

7 – Com um grupo de pesquisa tão interdisciplinar, nos é imediato pensar a importância para a filosofia de se abrir ao que é estrangeiro. Mas qual é a importância do estrangeiro na filosofia? Como os estudos do grupo permitem pensar o lugar do “fora” na reflexão filosófica?

Considerando o escopo mais tradicionalmente abordado pelo cânone filosófico, a “questão ambiental” já se manifesta de princípio como um fora, um elemento de exterioridade e estrangeiridade em relação ao qual nosso pensamento hoje é convocado a dar uma resposta. Nesse sentido, a inter ou transdisciplinaridade do grupo se apresentam como características estruturais do nosso modo de atender ao chamado da “questão ambiental”. De algum modo, a aposta prática do grupo é de que o pensamento (filosófico ou de qualquer outro tipo) só se dá quando provocado por seu fora, que então se torna o cerne íntimo ao redor do qual ele pode se desenvolver.

No que concerne à própria identidade como brasileiros, temos no país nossos próprios estrangeiros; aqueles que, a priori, não reconhecem sequer a ideia de Estado, tampouco a de identidade, mas são por elas atravessados e reinventam desse atravessamento sua existência. São os povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e todos aqueles de quem se diz “tradicionais”. Entendemos esses “distintos foras” também como distintos modos de existência ou práticas de construção de mundos que a crise ecológica mais que nunca exige que sejam levados a sério. Essas práticas outras, estrangeiras na tradicional polis filosófica, se tornam condições para nossos pensares sem jamais deixarem de ser outras/estrangeiras.A filosofia que emerge desses encontros torna-se capaz de reinventar a própria topologia dentro/fora (e seu reflexo em oposições como polis/physis, cultura/natureza, pensamento/corpo, entre outras), deixando questões de diferentes campos, disciplinas e mundos circularem, recriando modos de pensar e dar respostas responsavelmente para além de uma “nacionalidade” ou “proveniência” qualquer. Nesse sentido, o estrangeiro-viajante (para compor com uma noção do pensador árabe-palestino Edward Saïd) incorporado por um grupo de pesquisa transdisciplinar está o tempo todo lidando com seu próprio fora, em diálogo – sempre complexo, sempre desestabilizador, sempre assimétrico, sempre provisório – com seus muitos outros. O exercício transdisciplinar é, portanto, reconhecer-se disciplinarmente enquanto o outro do outro, a compor (com estes outros) ideias, práticas, conflitos, possíveis e impossíveis, fricções e ficções.

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